"eu defenderei até a morte o novo por causa do antigo e até a vida o antigo por causa do novo.
O antigo que já foi novo é tão novo como o mais novo."
Augusto de Campos (Verso, reverso, controverso)

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Conversas do Sertão II

 Fé  Sertaneja


Numa tarde sossegada de julho lá pelos anos de 1948, estava trabalhando no meu escritório, quando o porteiro me chamou. Havia na portaria um senhor de idade que queria falar comigo. Desci. Na saleta está sentado um  sertanejo de uns sessenta anos. Tipo de mineiro de Montes Claros.

Pele queimada, olhos entre verdes e  castanhos, lábios finos, orelhas grandes e delgadas caídas um pouco para frente, cabelo curto já grisalho. Trajava um terno de brim caqui, feito em casa. Calçava botinas marrons, de elástico. Tinha um olhar límpido, umas feições  de bondosa energia. Não era muito alto como costumam ser os montanheses. Mas o esguio do corpo lhe aumentava a altura. Cumprimentou-me respeitosamente,  e se apresentou:

_ Sou sitiante. Vim lá de Minas Gerais há três anos, há um ano estou abrindo uma fazendinha de café, quarenta quilômetros para lá de Maringá.

Maringá, naquela época era uma promessa de cidade. Tinha um ano de idade e, a maior parte dela era mata virgem: Aquele homem morava ainda a quarenta quilômetros para lá. Era um pioneiro, desbravador do sertão. Realmente, suas mãos calejadas mostravam falavam do manejo do machado e da foice. 

_ Moro num rancho de palmito, com minha mulher. Nossa vida é dura, estou plantando para meus filhos que deixei em Minas. Viajei a cavalo sete léguas até Maringá. Tomei uma caminhão até Apucarana. E de lá vim de trem até Ourinhos. De Ourinhos cheguei de jardineira. Deixei meus trens no Hotel Avenida, e vim ver o senhor.

Eu estava intrigado com aquele longo proêmio. Aonde queria ir o bom do mineiro? Como eu mesmo sou mineiro conheço minha gente. Mas não podia atinar com o objetivo de tal inesperada visita. Pensei em política, em queixa contra o Vigário, pedido de licença para construir capela, negócios, casos de família. Nada parecia corresponder à figura que ali me falava. A conversa ia se prolongando. O homem começou a contar a vida toda. Eu escutava, por fim, eu tomei a iniciativa, e perguntei:  

_ Meu bom amigo, eu gostaria de saber o que é que o senhor deseja de mim?

_ Já lhe digo senhor Bispo. Eu moro num lugar aonde é difícil chamar um padre. Eu posso morrer a qualquer hora. Eu vim me confessar. Fazer uma confissão geral de minha vida. Se Deus me chamar quero poder aparecer diante Dele sem susto.

Comoveu-me a fé daquele sertanejo. Três dias de viagem, incômoda a mais não poder se confessar. Perguntei:

_ Por que não se confessou  em Maringá com o padre

_ Não. A confissão de minha vida toda eu quero fazer com meu Bispo.

Levei-o à capela. Já estava mais que preparado. Confessou-se. Contou tudo, desde os sete anos. Depois se despediu com lágrimas nos olhos. No dia seguinte, cedinho, voltou ao palácio para assistir a santa missa e receber a santa comunhão. Depois partiu de volta para o mato, para seu rancho de palmito. Viverá ainda? Não lhe perguntei pelo nome, nem pelo lugar exato onde morava. Nunca mais o vi. Mas nós nos veremos de novo no céu.

Almas sertanejas! puras!  No meio das cruzes da vida sacerdotal, o padre tem momentos assim, que o põem bem junto de Deus, deste Deus que trabalha na filigrana da graça com o ouro das almas.

Ao contemplar a fé daquele sertanejo, lembrei-me dos heroicos sacerdotes do nosso interior, os nossos padres vigários, humildes, tenazes, apostólicos, que educaram a nossa gente. Nosso clero secular, que na labuta cotidiana formou a geração dos nossos sertanejos de fé de bronze. Lembrei-me das batinas pretas de Minas, minha terra, do interior do Paraná, das montanhas e planícies do Rio e Espírito que consumiram e consomem a sua vida para conservar e fomentar a fé profunda, ingênua e mística do nosso povo. Lembrei-me dos religiosos, dos missionários, os incendiários de Deus que passam abrasando as paróquias, as capelas, os sertões com o facho da pregação.

Lembrei-me de todos eles ao contemplar aquele sertanejo de Montes Claros, filho do sertão das secas, olhos límpidos e alma pura. Realmente a palavra do  Senhor é verdadeira: "Outros semearam e vós entrastes na seara plantada por eles, para colherdes o trigo".

Padres, Bem aventurados os vossos pés, que palmilhais todas as estradas evangelizando a Paz, evangelizando o Bem!

Dom Geraldo de Proença Signaud  S.V. D. 

 Bispo da Diocese de Jacarezinho (1947-1961) 
 Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese de Diamantina (1961-1980).


Fonte:  Texto publicado no jornal A Estrela Polar ( setembro de 1961 )